sábado, 11 de junho de 2016

Desabafo

Eu não tenho culpa de ser filho de pais machistas, preconceituosos, intolerantes, hipócritas, corruptos, interesseiros, mentirosos, cínicos. Pessoas que não sabem respeitar minhas limitações e dificuldades. Pessoas que nunca buscaram me entender, nunca quiseram saber o que sinto, o que penso. Nunca tiveram interesse em saber meus gostos, minhas opiniões, minhas vontades, meus sonhos. Pessoas que nunca me incentivaram a qualquer coisa. Nunca me apoiaram em minhas decisões. Não respeitam minha privacidade. Pessoas das quais eu nunca ouvi um elogio, nunca ouvi uma palavra de apoio, compreensão, solidariedade. Pessoas que nunca reconheceram meus sacrifícios, minhas (poucas) vitórias. Pessoas sem o mínimo de consideração e respeito a toda e qualquer particularidade minha. Pessoas que mentem sobre mim para outrem. Pessoas que se mostram socialmente de uma forma e agem para com os outros de outra. Pessoas que descaradamente assumem, ainda que não transparentemente, serem corruptas e interesseiras. Pessoas sem escrúpulos. Que não aceitam diferenças. Dualistas. Fascistas. Pessoas que me culpam individualmente por tudo, como se história, coletividade, associações e consequências não existissem. Pessoas que me culpam por estar doente. (Por ser doente, como já me considero.) Me culpam por ter problemas. Me culpam por ser quem sou (se é que alguém sou). Me culpam por ser como sou. Pessoas que me ofendem, me desdenham, me humilham, menosprezam, subjugam, desmoralizam. Me estressam. Todos os dias. Há anos. Sem sessar. Pessoas que me obrigam a conviver com traumas de infância por eles provocados. Que me fizeram passar agonizando minha adolescência, a fase que poderia ser a mais proveitosa. Pessoas que me provocaram feridas internas, profundas, incuráveis. Pessoas que fizeram eu ser uma pessoa deprimida, depressiva, expressivamente tristonha, que desaprendeu a conviver com os outros; que tem medo. Pessoas que fazem me sentir a pior pessoa do mundo. Sempre. Que me fazem pensar que mereço ninguém, que mereço nada, que não nasci pra viver, que não nasci pra ser feliz.

E o que eu faço diante disso? Choro. Escrevo. Me isolo. Quem atura alguém como eu? Quem merece um perdedor? Quem quer estar ao lado de uma pessoa-problema? Me vejo me humilhando implorando por atenção a algumas pessoas, por compreensão, por qualquer coisa que possa ao menos minimizar um pouco da minha dor, me fazer esquecer, ainda que por alguns instantes. Fracasso. Ninguém é obrigado. Já aceitei isso.

O que já fiz? Tentei questionar. E o que recebi? Piora das agressões verbais.
O que já fiz? Procurei um psicólogo. E o que aconteceu? Nada. Psicólogo não é mágico.

Imagino que se fosse uma outra pessoa já estaria envolvida com drogas, como sei (pessoalmente) que há casos. Imagino suicídio. Nem pra isso eu sirvo. Sou covarde demais. Não sei mais agir. Não consigo. Me sinto impotente.

Me tornei uma pessoa que tem saudade de época alguma do passado. Minhas nostalgias são apenas de raros e curtos momentos.

Já sou um indivíduo exacerbadamente tímido, com dificuldades de relacionamentos interpessoais. Meu isolamento dentro de casa piorou minha situação. Simplesmente não sei ser sociável. Me odeio por isso.

O que aprendi? A ser demasiadamente empático. Sei exatamente que muita coisa pode machucar as pessoas porque não sabemos o que elas passam, não sabemos suas angústias, sofrimentos, seus motivos. Aprendi a não julgar. Aprendi a importância de um elogio. Aprendi a importância de ouvir; de buscar entender e compreender as pessoas. Aprendi o valor de se colocar a disposição de alguém, ainda que sei que pouco ou nada posso fazer; a dar atenção; a ajudar. Aprendi a valia do incentivo, do encorajamento. Mais que aprendi a respeitar as particularidades, diferenças, modos de ser/agir, gostos e concepções das pessoas. Aprendi o valor da verdade, e, sobretudo, que ela não é sinônimo de opinião e tampouco de grosseria e ou insulto. Aprendi a importância de demonstrar e dizer nossos sentimentos; de fazer alguém se sentir importante, amado.

Pergunto-me sempre se mereço. O tempo passa e nada muda. Ao contrário, só piora. O tempo me responde que sim. Pergunto-me por quê. Pergunto-me pra que existo? Qual minha missão nessa vida? Seja qual for a resposta, estou fracassando.

Não sei se suplico por justiça ou livramento. Não sei se o que chamo de justiça é, na verdade, desejo de vingança. Vocês não têm ideia da quantidade de estresse, raiva e ódio acumulados dentro de mim.

Não sei como tudo terminará, só espero que termine logo.

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